A Fé de Jackeline

A seguinte reportagem foi produzida durante o curso de ‘Comunicação Social – Jornalismo’ da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no ano de 2016. 

A Fé de Jackeline

Jackeline Mota Betcel, 19 anos, frequenta a igreja Assembleia de Deus desde que era criança. Sua avó, que a criou na infância, é uma das dirigentes da congregação, localizada em um ramal nas proximidades da capital Manaus. Jackeline viveu lá a infância inteira. Quando mais nova, cantava na igreja e fazia leituras de passagens bíblicas no altar.

Mesmo sendo assídua nos cultos, em alguns momentos não se via Jackeline na igreja. Primeiro porque ‘Jacke’ nasceu Denilson Mota de Carvalho, em 1997.  Quando começou a aparentar ser um garoto afeminado na infância, as crianças começaram a xingar e dar apelidos para o, então menino, que não deixava barato e não corria de briga. “Eles bagunçavam e eu retribuía”. Depois de um tempo, Jacke percebeu que aquilo fazia mal pra ela e não pra eles, porque quanto mais dava importância, mais era importunada. Quando deixou de se dar atenção, parou de ser incomodada. “A minha relação com a escola sempre foi assim”. Continue lendo

Estamos em uma nova Era de Ouro do Cinema

Por Nicolas Barber*p045j37h

Está é a lista dos Melhores Filmes do Século XXI, elaborada pela BBC em conjunto com 177 críticos ao redor do mundo. A lista dos dez melhores – encabeçada por um neo-noir surrealista americano primeiramente pensado como um piloto para a TV – inclui: uma animação japonesa sobre uma menina que trabalha em uma casa de banho para monstros (Viagem de Chihiro, em quarto lugar), um retrato aparentemente sem enredo da vida de um garoto no Texas (Boyhood, em quinto) e uma melancólica comédia romântica envolvendo uma máquina de apagar memórias (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, na sexta posição).

ELLAR COLTRANE BOYHOOD (2014)Mesmo o cinéfilo mais experiente em festivais internacionais tende a assistir mais filmes em inglês que os demais. Ainda assim, a lista continua sendo uma seleção incrivelmente diversa e internacional, incluindo um inovador documentário sobre o genocídio na Indonésia (O Ato de Matar), junto de um drama romeno sobre aborto (4 meses, 3 semanas e 2 dias) e uma fantasia sobre um submundo onírico na Espanha Franquista (O Labirinto do Fauno), seguido de uma odisséia francesa sem gênero-definido, com a participação de Kylie Minogue e carros falantes (Holy Motors). Animações à parte, não há muito entre os mais bem classificados da lista que possam ser classificados como entretenimento “para o povão”.

Que conclusões podemos tirar disto? Uma delas seria que Steven Soderbergh e Yorgos Lanthimos não são os queridinhos de crítica como poderia-se pensar. Outra seria que deveria haver mais filmes dirigidos por mulheres no mundo. Porém, a abundância de nomes notáveis e inovadores na lista sugere que o cinema está com muito mais gás do que nós costumamos acreditar.

Nova Ordem Mundial
Basta uma espiada em qualquer página de notícia sobre os negócios do cinema e você vai encontrar um título dizendo que Hollywood está decaindo, que o merchandisgn está em alta e que os diálogos estão sendo substituídos por grunhidos e frases monossilábicas para que os filmes possam ser exportados com o mínimo de dublagem. Há notícias sobre cinemas fechando, da pirataria destruindo a indústria de zilhões de dólares, da televisão oferecendo narrativas mais sofisticadas do que as modestas salas de cinema.

No entanto, os inventivos 100 filmes nesta lista indicam que, apesar de tudo isso, nós talvez estejamos vivendo em uma era de ouro do cinema. É visível que a análise não se baseia em gigantes do final do século XX: Spielberg e Scorsese têm apenas um filme cada; Mike Leigh, Ken Loach, Werner Herzog e os irmãos Dardenne estão ausentes; e o único Coppola a aparecer não é Francis e sim sua filha Sofia. E ainda assim a velha guarda faz muita falta. Há uma imensidão de filmes surpreendentes por aí se você souber onde encontrá-los – e saber onde encontrá-los nunca foi tão fácil.

The White Ribbon 2009 directed by Michael HanekeOs críticos estão, sem dúvida, em uma vantagem desleal quando se fala de ter acesso às melhores produções. Se você tem o privilégio de ser pago para escrever sobre cinema ou, melho ainda, cobrir festivais que “servem” o melhor dos cardápios, você talvez tenha uma visão mais apurada de como anda a sétima arte do que quem precisa escolher entre Esquadrão Suicida e A Lenda de Tarzan em uma sexta-feira à noite.

Apesar disso, nenhum de nós está tão longe de um ótimo filme como costumávamos estar. No século XX, qualquer um que estivesse a fim uma contemplação monocromática sobre as raízes do nazismo (A Fita Branca) no mínimo teria uma tarefa difícil em mãos. Mesmo no auge dos cinemas alternativos e das locadoras de VHS, você teria que esperar um bom tempo para que um magnífico autoral simplesmente caísse em seu colo. Porém, no século XXI, qualquer um com acesso à internet não encontra problemas em procurar filmes sobre cidades sendo devastadas em 3D.

FINDING NEMO 2003 Buena Vista animation. Image shot 2003. Exact date unknown.Estamos sempre a um clique ou dois de um trailer interessante no youtube, uma satisfatória análise em um site didático ou uma discussão entusiasmada em um fórum ou sessão de comentários. Alguns outros cliques mais e nós podemos comprar o filme em si, seja em DVD ou via download. É verdade que assistir a um claustrofóbico mistério doméstico iraniano (Uma Separação) em casa pode não ser o mesmo que vê-lo em uma sala de cinema lotada. Porém, tanto para os cineastas quanto para o espectador, é melhor do que nem assistir.

É hora do digital
O tal mundo globalizado tem suas complicações, claro. Enquanto os estúdios apostam cada vez mais em faturamentos internacionais e merchandising, eles investem mais e mais recursos em blockbusters de super-heróis e ficção científica. Os dramas de sucesso, prestigiados policiais e respeitáveis adaptações literárias que costumavam atrair tanto o público quanto estatuetas nos anos 80 e 90 perderam força.

Diretores costumam reclamar desta tendência. Ao invés de poder contar histórias maduras e humanas sobre a vida contemporânea, eles têm que se apegar seja às ficções científicas de grande orçamento ou minúsculos filmes independentes. Porém, há um lado bom neste efeito de polarização: o século XXI presenciando a morte dos famigerados caça-prêmios. Foi-se o tempo em que Harvey Weinstein arranjava os direitos de um bestselling, contratar Lasse Hallström para dirigir uma versão médio-orçamento, quase-cult e esperar sentado enquanto as indicações ao Oscar sobem na tela.

alwigmmrxqrcpijhkgmlAo invés disso, diretores têm que ou tentar em encaixar nos blockbusters sua própria marca idiosincrática – como George Miller fez em Mad Max: Fury Road e Christopher Nolan em O Cavaleiro das Trevas – ou têm que investir suas energias em projetos mais experimentais e pessoais. E enquanto talvez pareça uma dura tarefa conseguir recursos para estes filmes, nossa lista é a prova inspiradora de que é possível. Novamente, isso está bastante relacionado com a tecnologia digital. Leos Carax filmou Holy Motors com câmeras digital, sob protesto, porque não conseguiu garantir o orçamento para usar película, mas a excêntrica obra de arte resultante é tão intrinsicamente digital em seu visual e textura que é difícil imaginá-la de outra forma.

Carax não está sozinho em se apegar à película em vez do vídeo digital. Apichatpong Weerasethakul declarou que Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é, entre outra coisas, seu lamento pela eminente extinção da película – e não se consegue estar em uma sala com mais de três cinéfilos sem que um deles fique vangloriando sobre o peso de um rolo de película e o som do projetor. O vídeo digital tende a ser menosprezado como um barato e mal-visto substituto.

No entanto, mesmo cineastas que desdenham do digital estão tendo que dar o braço a torcer que ele está a trazendo todos os tipos de possibilidades fascinantes. Mais evidente, estão as animações, como WALL-E, Divertidamente e Procurando Nemo, que não existiriam sem computação gráfica. (E sem a Pixar, animação por computação gráfica nem existiria como é hoje).

MELANCHOLIA 2011 Magnolia Pictures film with Kirsten Dunst. Photo Christian Geisnaes

E, em seguida, há os filmes que usam a tecnologia digital como seu tema principal, como Caché de Michael Haneke e A Rede Social de David Ficher. E há outros ainda que usam esta tecnologia para fazer arte sublime: assistir o hipnotizante prólogo de A Árvore da Vida de Terrence Malick e Melancolia de Lars Von Trier é o mais próximo que alguns de nós iremos chegar de uma experiência religiosa.

Esse é apenas o começo. Enquanto as câmeras digitais continuam a ficar melhores e mais leves, e o streaming cada vez mais rápido, fica cada vez mais acessível para qualquer não somente fazer seu próprio filme, mas distribuí-lo ao redor do planeta. Agora já não é incomum para um filme ser gravado em um país, editado em outro e receber a trilha sonora em um terceiro. Em breve, poderemos conversar sobre ‘cinema mundial’ de maneiras nunca antes experimentadas. E tudo devido aos avanços surgidos no século XXI. É daqui para os próximos 83 anos.

* Traduzido por Rom Sousa

Deve ser autista! | Comentários sobre ‘Número Zero’

Número Zero (Record; 208 páginas; 35 reais)umberto-eco-numero-zero

Voltei! Fiquei muito tempo sem publicar nada sobre livros, embora tenha feito algumas resenhas para a faculdade e para o curso de inglês em 2015. Encontrei um arquivo na minha área de trabalho com um comentário sobre este livro do Umberto Eco que fiz para uma disciplina chamada Jornalismo Especializado.

Em 2015 também tentei começar a fazer vídeos no youtube com resenhas de livros, porém, entre vários problemas, ainda não consegui me decidir que tipo de vídeos produzir, se resenhas mais sóbrias ou algo mais bem humorado. Por causa disso, somado à falta de tempo o canal está parado há meses.

Uma das razões de eu ter deixado de publicar foi o fato de que em 2015 comecei a estudar para um exame de proficiência de nível avançado em inglês. Portanto, dediquei cada segundo do meu tempo livro para resolver exercícios, ler em inglês e escrever dissertações. Pretendo, inclusive, publicar futuramente uma lista comentando os livros que li em inglês desde que comecei essa jornada para comprovar meu conhecimento no idioma.  Continue lendo

O Essencial É Invisível Aos Olhos | Resenha de ‘O Pequeno Príncipe’

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O Pequeno Príncipe (Agir; 93 páginas; 9 reais)

Em fevereiro de 1990, a espaçonave Voyager 1 concluiu sua missão primordial, depois de ter partido da Terra em 1977 com o objetivo de observar os planetas Saturno e Júpiter e suas respectivas luas. Como não há, no espaço, resistência do ar, a inércia possibilita que a nave vague infinitamente pelo cosmos até que encontre um obstáculo significativo, como a órbita de um planeta.

A cerca de 6,4 bilhões de quilômetros de distância da Terra, os astrônomos enviaram um comando para a espaçonave, prestes a sair do Sistema Solar, solicitando que ela virasse suas lentes para nosso planeta uma última vez e mostrasse o que via. A foto da Terra como um pequeno conjunto de pixels na imensidão do espaço inspirou o astrônomo Carl Sagan a escrever o livro Pálido Ponto Azul, publicado em 1994.

Sagan além de astrônomo, astrofísico e cosmólogo foi um excelente comunicador, soube aproveitar suas experiências e participações em programas espaciais para refletir sobre a condição humana diante da vastidão do Universo. Alguns anos depois, ao comentar a famosa fotografia, Sagan afirmou: “A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios (…)”.

Refletir sobre a dimensão do universo é um exercício incrível para cada um de nós, tendo que lidar com o tamanho de nossos egos diariamente, vivendo a insignificância de nossos conflitos. Foi com essa perspectiva que li O Pequeno Príncipe, publicado em 1945, a história do principezinho que passeou pelos planetas observando a condição dos indivíduos que encontra, todos “pessoas adultas”, e a falta de lógica em suas responsabilidades e atitudes.

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Por São Arnaldo! | Resenha de ‘A Lenda de Ruff Ghanor, Volume I’

91w-SqrDpnL._AA1500_A Lenda de Ruff Ghanor, Volume I: O Garoto-Cabra (Nerdbooks; 320 páginas; 39 reais)

Sim, vale a pena! Ignore o subtítulo aparentemente tosco (“o garoto-cabra”), o nome clichê do protagonista de fantasia medieval (“Ruff”) e o erro gramatical em “São Arnaldo” ao invés de “Santo Arnaldo”. Depois, deixe todas as expectativas de lado ao ler A Lenda de Ruff Ghanor – O Garoto-Cabra. Todos esses detalhes serão devidamente explicado com argumentos convincentes no decorrer da história. O mundo de Ruff Ghanor faz parte de um universo riquíssimo em detalhes e que ainda trará muito material aos seus fãs em breve.

Enquanto procuram por cabras que escaparam de um cercado, dois sacerdotes da ordem de São Arnaldo acabam encontrado no interior de uma caverna um pequeno garoto, aparentemente muito poderoso e ao mesmo tempo cativante. O garoto é levado pelos acólitos e cresce seguindo os preceitos da fé praticada no mosteiro, onde há um vilarejo ao redor. Durante sua juventude ele vive uma paixão e descobre o poder de um terrível tirano que assola todas as terras conhecidas, o dragão vermelho Zamir. Nesta primeira parte desta – já confirmada – trilogia, acompanhamos as aventuras que levam à formação deste herói e seu destino inevitável: derrotar o dragão. Continue lendo

Alguns bichos são mais iguais que os outros | Resenha de ‘A Revolução dos Bichos’

a-revolucao-dos-bichosA Revolução dos Bichos (Companhia das Letras; 152 páginas; 27 reais)

Animais de uma fazenda na Inglaterra, certo dia, convocam uma reunião no celeiro e chegam ao consenso de que estão sendo oprimidos pelos donos da granja. Eles então bolam um plano para expulsar seus opressores e aplicar um novo sistema que traga benefícios para a vida dos animais, onde todos serão menos explorados. O livro expõe as relações entre classe dominante e classe operária, no contexto do início do século XX, à medida que também alerta, de forma irônica, para os riscos de centralizar o poder nas mãos de poucos, em favor de um ideal.

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair. Ele nasceu em 1903, na Índia, onde seu pai trabalhava para o império britânico, porém cresceu na Inglaterra, onde estudou em colégios tradicionais. Durante sua vida foi jornalista, crítico e romancista, tornando-se um dos escritores mais influentes do século XX, sendo lembrado principalmente pela publicação de A Revolução dos Bichos e 1984, ambos na década de 40. Morreu de tuberculose em 1950, aos 47 anos.

Para aqueles que têm dificuldade em aprender história, o livro é um excelente pontapé para despertar o interesse pela Revolução Russa. É possível traçar paralelos entre alguns fatos e personalidades marcantes deste período. Uma leitura despretensiosa de A Revolução dos Bichos pode terminar com uma pesquisa online que vai deixar o leitor familiarizado como nomes como Lenin, Stalin e Trotsky.  Continue lendo

Quem é Você, Will Grayson? | Resenha de ‘Will & Will – Um Nome, Um Destino’

will Grayson will graysonWill & Will (Galera Record; 352 páginas; 29 reais)

Não é uma história extraordinária, por mais que a sinopse se recuse a admitir (até mesmo por questões comerciais). Não é o tipo de livro que se lê esperando um grande acontecimento, como uma invasão alienígena ou uma grande batalha. E é bom que o leitor esteja avisado disso, antes de começar Will & Will, a história de dois garotos com o mesmo nome cujas vidas coincidentemente se cruzam.

O livro é uma colaboração entre dois consagrados autores, bastante conhecidos entre o público juvenil: John Green, que alcançou o topo da lista de livros mais vendidos do New York Times, com Quem é Você, Alasca?, O Teorema Katherine, Cidades de Papel e A Culpa é das Estrelas, além de ter vencido prêmios literários importantes como o Printz Award. Ele também é o co-criador (junto com seu irmão Hank) do canal do youtube vlogbrothers, que já teve quase 500 milhões de visualizações e 2 milhões e 400 mil inscritos; E David Levithan, que também já esteve no topo da lista de mais vendidos do The New York Times e recebeu prêmios por diversos livros destinados ao público adolescente, incluindo Garoto Encontra Garoto e Todo Dia. Levithan trabalha como diretor editorial na Scholastic, onde fundou o Push Imprint, selo dedicado a encontrar novas histórias e autores para o público adolescente. Entre os autores que Levithan publicou/editou pela Scholastic está a autora de Jogos Vorazes, Suzanne Collins. Continue lendo