Mitologia Nórdica – Parte II – A cosmogonia

O abismo primordial. Nilfheim ao norte e Muspelheim ao sul.

Cosmogonia é uma palavra de origem grega. Cosmo = universo Gonos/Genos = origem. Neste post, irei tratar justamente do “Genesis” segundo a mitologia nórdica.

As informações estão separadas por todo o Codex Regius, principalmente no poema Völuspá e no Gylfaginning.

No princípio de tudo, não havia nada além do Ginnungagap, o abismo primordial citado no Gylfaginning. Ele caracteriza o vazio absoluto que existia antes da criação nórdica.

Então, como se o espaço começasse a se polarizar, surgiram duas regiões em lados opostos do Ginnungagap. Ao sul surgiu Muspelheim (também chamado somente Muspel), o reino das chamas e do fogo, e ao norte surgiu Niflheim, o reino do gelo e do frio. Assim criaram-se os dois primeiros opostos da mitologia nórdica: fogo e gelo.

Então as forças se colidiam no meio do Ginnungagap e assim surgiram os onze rios primordiais chamados Élivágar, vindos da fonte de Hvergelmir..

Ymir se alimentando do leite da vaca Auðumbla enquanto o filho de Ymir nasce de seus pés e Buri nasce do gelo.

Do choque do frio e do calor, junto com a criação dos rios surgiu o primeiro de todos os gigantes de gelo, Ymir. Segundo o poema Vafthrúdnismál, ele surgiu do veneno que pingava desses rios, o que já seria uma espécie de prefiguração da natureza malévola de todos os gigantes.

Do meio do gelo, ao mesmo tempo que Ymir, surgiu a vaca Auðumbla, que com seu leite, passou a alimentar Ymir eternamente, enquanto ela mesma se alimentava lambendo o gelo de Niflheim e o mundo continuava a se alterar ao seu redor.

Durante esse processo, é dito que o primeiro casal de gigantes nasceu de sua axila esquerda enquanto suas pernas deram luz a um filho, iniciando a descendência dos gigantes.

Depois de três dias sucessivos lambendo o gelo, Auðumbla descobriu o corpo de um ser chamado Buri, que teve um filho chamado Bor, casado com Bestla, filha de Bölþorn. Sobre esses seres não é exemplificada a sua espécie, mas eles são os precursores da primeira família de deuses, os Æsir.

Os filhos de Bor matam Ymir.

Bor e Bestla tiveram três filhos: Oðinn (ou Odin), Vili e (na Völuspá, os irmãos de Odin se chamam Hœnir e Lóðurr), as três primeiras divindades.

Muitos comparam essa primeira tríade divina com a tríade Zeus – Hades – Poseidon, da mitologia grega.

Os três sentiram-se ameaçados com a presença do gigante de gelo que gerava criaturas do nada. Então os irmãos se uniram e mataram o gigantesco Ymir, e seu sangue inundou todo o Ginnungagap.

Para escapar da inundação, o gigante Bergelmir criou um barco onde conseguiu escapar com sua mulher. Um mito semelhante ao Dilúvio bíblico.

Com o corpo do gigante, os três criaram o mundo, dando forma ao Ginnungagap.

De sua carne fizeram a terra, de seus ossos foram feitos as montanhas, dos cabelos as árvores, dos ossos menores foram feitos todos os tipos de pedra. Do sangue foi feito a água dos rios e mares. Das larvas que cresciam no corpo foram moldados os primeiros anões.

Os três filhos de Bor ergueram o crânio de Ymir para fazer a abóbada celeste e para sustentá-lo escolheram quatro anões que foram postos nos pontos cardeais. Seus nomes eram Norðri, Suðri, Austri e Vestri, que correspondem respectivamente aos pontos Norte, Sul, Leste e Oeste.

Das chamas mais ardentes de Muspelheim, os irmãos criaram os astros e estrelas. E do cérebero de Ymir foram feitas as nuvens.

Oðinn, Lóðurr e Hœnir criando Askr e Embla.

O mundo era basicamente uma grande massa de terra cercada por um oceano enorme. Dentro dele, os deuses separaram uma área chamada Jötunheim para abrigar os descendentes de Ymir, os gigantes de gelo e pedra chamados Jötun.

Segunda a Völuspá, um dia enquanto caminhavam pelo mundo que haviam criado, Odin, Lóðurr e Hœnir encontraram dois troncos de árvore caidos, um tronco de freixo (Askr) e o outro de olmo (Embla).

Para criar a raça humana, Odin deu a eles o espírito, Hœnir deu-lhes os sentidos e Lóðurr lhes deu sangue e cor. Foi assim criado o primeiro casal humano, Askr e Embla.

Para que eles não ficassem a mercê dos gigantes, os deuses tomaram a sobrancelha de Ymir e assim criaram Midgard, a terra dos homens.

Os deuses também criaram as maneiras de medir o tempo. As fases claras e escuras da terra foram divididas, a noite é governada pela deusa Nött e o dia por seu companheiro Dagr que com seus cavalos respectivamente Hrimfaxi e Skinfaxi percorrem o mundo a cada dois dias.

A deusa do sol é por vezes chamada de SólRoðull ou Álfröðull e o seu irmão, o deus da lua é chamado de Máni. 

Segundo a Völuspá, eles foram levados para os céus para guiar os astros sem tomar conhecimento de sua importância.

O poema Vafþrúðnismál diz que o pai dos dois se chama Mundilfari, um personagem anônimo cuja raça é desconhecida.

É interessante perceber que nos países escandinavos, sol  é um substantivo feminino ao passo em que lua é um substantivo masculino, o que explica o fato de haver uma deusa do sol ao invés de um deus, como na maioria das mitologias.

Nessa figura, Odin não é representado usando o seu charmoso tapa-olho.

Na Edda em Prosa, no Gylfaginning, é dito que Mundilfari havia tido filhos tão bonitos que ele lhes deu os nomes Sól e Máni (Sol e Lua).

Então, os deuses com raiva da arrogância de Mundilfari, tomaram seus filhos e os colocaram para guiar os astros pelos céus durante toda a eternidade.

(…)

Bem, assim termina o segundo post sobre Mitologia Nórdica. No próximo, vou tentar explorar mais sobre a Cosmologia Nórdica, tratando sobre os nove mundos e suas características.

Quem souber mais e quiser me ajudar a complementar e/ou corrigir o post, informe-me pelos comentários.

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13 thoughts on “Mitologia Nórdica – Parte II – A cosmogonia

  1. Uma crítica construtiva e também um dúvida. Nunca me aprofundei no assunto, mas sabe-se que o próprio Tolkien tinha a preocupação de que fossem adaptados os nomes de seus personagens e localizações para cada idioma para que facilitasse a absorção de informação por parte dos leitores.
    Quando jogo Skyrim, vejo essa preocupação com os nomes, sendo que para não complicar muito usam algumas denominações genéricas comuns na língua inglesa como Companions, Greybeards e Dragonborn.
    A pergunta é: Não há adaptação dos nomes no estudo da mitologia nórdica como “ginnungagap” por exemplo?

    • Ginnungagap é um nome muito arcaico, assim como a vaca Auðumbla, cujas raízes são tão antigas que não dá pra dizer exatamente o que significa.

      Os nomes mais comuns são adaptados, os Élivágar, embora eu não tenha comentado, são chamados “Ondas de gelo”, as filhas do gigante Ægir atendem em português como “As Nove Ondinas”.

      As adaptações serão feitas na medida do possível para não dificultar a leitura. No caso da cosmogonia é mais complicado, por tratar de termos esquecidos até mesmo pelos próprios nórdicos.

      • olhaí! quem leu silmarillion e contos inacabados amarradão não vai reclamar, mas a primeira parte ficou mais acessivel pra um público geral.

        Esperando as outras partes, amarradão!

        ps: e olha que eu nem uso a giria amarradão, mas…

    • Palavras nórdicas é triste mesmo… é a coisa mais difícil do mundo!! pior que isso só mitologia asteca! parece que os caras esbarram no teclado pra criar nome pras divindades deles!! D:

      • Sei como é isso, tive essa dificuldade estudando o hebraico, grego e o aramaico.
        existem letras que não existem no nosso alfabeto, ai temos que pegar algo “parecido” para conseguir pronunciar ou então unir letras para dar um som que chegue próximo do original.

        É difícil mas vale apena. 😀

    • Valeu, não esperava que pessoas que não gostem de mitologia se interessassem pelo post! 😀
      E os astecas acabavam mesmo no nome, Quetzacoatl (se eu não tiver esquecido alguma consoante) é só um dos exemplos de nomes bizarros.

  2. de acordo com o livro Iniciação às Runas da Ligia amaral Lima tem um trecho que fala o seguinte : “Não satisfeito, solicitou Odin permissão para beber um pouco da água da Fonte de Mimir ( Fonte do Conhecimento) e não hesitou em entregar em pagamento por tão valioso líquido mágico um de seus olhos”

    • Quando eu e meu amigo começamos o blog, estávamos nos Ensino Médio e possuíamos muito tempo livre, agora estamos fazendo faculdade de jornalismo e está realmente muito complicado organizar o tempo.

      Porém, não desisti de colocar o que eu sei de Mitologia Nórdica no blog, existe pouco conteúdo em português e sempre é legal compartilhar e conversar com diferentes pessoas sobre isso. Pode demorar um pouco, mas um dia eu continuo. 😉

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