O Ciclo do Anel pt. 0 – Os Völsungs

Uma das sagas épicas mais importantes da Mitologia Nórdica é sem dúvida o Ciclo do Anel Amaldiçoado, uma lenda nórdica que no séc. XIX foi adaptada na ópera O Anel dos Nibelungos pelo compositor alemão Richard Wagner.

Optei por não intitular essa série de posts como “O anel dos nibelungos” porque vou me ater à versão nórdica da lenda, e não à adaptação feita pelo compositor alemão. As diferenças são mínimas, mas ainda assim fazem toda a diferença.

O post número zero vai falar sobre a linhagem dos Völsungs, que não necessariamente fala do Ciclo do Anel, mas fala sobre os antepassados do maior herói nórdico, Sigurd, e do surgimento da espada mágica que serviu de inspiração para o mito de Excalibur, a espada Gram.

(avalanche de nomes esquisitos pela frente, vou tentar adaptar sempre que puder -q)

  • O Nascimento de Volsung

É dito que há tempos atrás, havia um grande rei chamado Rerir, o rei de Hunaland (frequentemente apontado como a Holanda). Ele era amado por seu povo e era neto das majestades divinas Odin e Frigga.

Odin e Frigga, os soberanos dos deuses nórdicos são os fundadores do mais importante clã de heróis, os Volsungs.

Porém, o rei Rerir e sua mulher eram incapazes de ter filhos, o que significava o fim de sua linhagem. A deusa Frigga apiedou-se do casal e enviou até eles uma giganta (Jötunn) chamada Lióde (Hljóð).

Nota: Lembre-se que os gigantes da mitologia nórdica são seres mitológicos que geralmente podem assumir a forma que desejar. Eu não gosto muito de adaptar nomes, mas estou tentando deixa o mais próximo da pronúncia correta.

Lióde carregava um presente da deusa Frigga, uma maçã da fertilidade, somente graças a essa maçã, a mulher de Rerir conseguiu engravidar.

Rerir morreu e sua mulher permaneceu grávida por seis anos. A rainha pediu então o parto por cesariana, o que na época sempre levava à morte. Assim nasceu o rei Volsung (Völsungr), bisneto de Odin e pai da linhagem de reis de Hunaland.

Volsung casou-se com Lióde, a giganta que fora enviada por Frigga e teve dez filhos e uma filha, os príncipes de Hunaland.

  • Sigmund e a espada Gram

De seus onze filhos, somente dois são nomeados nos contos, a princesa Signe (Signý) e o príncipe Sigmund, que eram gêmeos.

A princesa Signe fora dada em casamento ao rei Siggeir de Gautland (atual Suécia) e uma grande festa cerimonial foi feita no salão do palácio de Volsung.

No salão real, crescia uma grande macieira que havia nascido das sementes da maçã que fora dada pela deusa Frigga. Ali estavam reunidos todos os príncipes, os Things (conselheiros) e os Thanes (barões guerreiros) que faziam parte das duas cortes reais.

Quando todos ainda estavam comemorando o casamento, um velho caolho com uma capa cinzenta adentrou o salão (Odin, obviamente) e fincou uma brilhante espada na grande macieira, partindo logo depois.

Todos os homens  naquele salão cobiçaram a belíssima espada, tentaram retirar a espada mas ninguém conseguiu, nem mesmo os reis Siggeir ou Volsung. Até que o jovem Sigmund, o irmão gêmeo da princesa, levantou-se e sem dificuldade retirou a espada da árvore.

Era a melhor espada já vista, certamente não fora forjada por mãos humanas. Sigmund nomeou-a Gram.

O rei Siggeir, agora cunhado de Sigmund, cobiçou a espada e ofereceu uma enorme quantidade de dinheiro por ela, mas Sigmund recusou todas as ofertas que lhe foram feitas.

Ofendido, o rei sueco tomou sua esposa e saiu do salão com toda a sua corte.

  • O massacre dos Volsungs

Três meses depois, o clã dos Volsungs foi convidado pelo rei Siggeir a visitá-lo, propondo um fim ao clima hostil que havia sido gerado entre as famílias depois do casamento.

O rei Volsung e seus dez filhos prontamente responderam ao chamado de Siggeir, mas foram recebidos com um exército pronto para enfrentá-los, e o orgulho do rei holandês não permitiu que ele recuasse.

Volsung caiu na batalha ao lado de sua corte, os dez príncipes foram capturados e a espada Gram foi tirada das mãos de Sigmund.

A rainha Signe não quis seu marido matasse seus irmãos logo de uma vez, então sugeriu que os deixasse acorrentados em árvores na floresta para que com o tempo ela pudesse pensar em uma maneira de libertá-los.

Porém o rei Siggeir ordenou que uma loba (provavelmente um gigante metamorfoseado) fosse noite após noite devorar os príncipes.

Depois de nove noites sobrou somente Sigmund acorrentado a uma árvore. Signe teve uma idéia brilhante: mandou que uma criada enchesse a boca de Sigmund com mel e pediu que ele esperasse até a noite.

Quando a loba veio matar Sigmund à noite, começou a lamber o mel que escorria da boca dele. Ela apoiou suas duas patas na árvore para lamber melhor o mel, e quando ela colocou a língua dentro da boca dele, Sigmund arrancou sua língua e ela por reflexo estilhaçou a árvore com suas patas, libertando Sigmund.

A loba morreu e Sigmund escondeu-se na floresta, já planejando sua épica vingança contra o rei Siggeir.

  • Signe e Sigmund

Curiosamente, essa não é a única lenda nórdica onde duas pessoas trocam de forma. Isso é Hogwarts fazendo história!!

A rainha foi até a floresta se encontrar com seu irmão para que os dois planejassem sua vingança. Para ajudá-lo a matar o rei, a rainha enviou ao irmão seus dois filhos mais velhos, mas Sigmund os matou porque eles eram muito fracos.

Com o intuito de obter uma parceria mais forte para auxiliá-los em sua vingança, Signe trocou sua aparência com uma feiticeira (poção polissuco?), escapou do castelo e disfarçada dormiu com seu irmão.

Dessa união incestuosa nasceu Sinfiotile (Sinfjötli), que quando completou nove anos foi enviado à floresta para ser treinado pelo pai.

Depois de algum tempo de treinamento, pai e filho começaram a invasão do castelo de Siggeir. Eles abriram caminho até o salão principal, onde Sinfiotile fatiou os outros dois filhos do rei.

Siggeir finalmente percebeu a invasão e mobilizou seus guardas, que capturaram Sigmund e seu filho, prendendo-os numa jaula em chamas. A rainha Signe correu em seu auxílio e jogou um pedaço de carne no interior da jaula em chamas, nesse pedaço de carne estava a espada mágica Gram.

Sigmund e Signe

Sigmund e Sinfiotile conseguiram escapar da jaula, pois a espada conseguia cortar metal como se fosse pano. De posse da espada, Sigmund e seu filho instauraram o pânico no palácio de Siggeir, que ficou em chamas.

Sigmund, Signe e Sinfiotile estavam fugindo do castelo quando a rainha revelou que Sinfiotile era um filho incestuoso, se arrependeu do que fez a seu marido e se jogou nas chamas para morrer junto de Siggeir.

Depois disso, Sigmund e seu filho/sobrinho Sinfiotile voltam para o reino de Hunaland, onde eles eram esperados. Sigmund se casou com a nobre dama Borghilde (Borghild, não sei como adaptar esse nome -q) e com ela teve dois filhos, Helgi e Hamund.

  • Os filhos de Sigmund

Helgi e sua mulher, a valquíria Sigrún.

Dos dois filhos que Sigmund teve com Borghilde, somente um deles é citado, porque se tornou um grande herói, este é Helgi.

Helgi, conhecido como “o matador de Hunding” (Helgi Hundingsbane), acompanhado de seu meio-irmão mais velho fez vários feitos heróicos, mas não quero falar muito sobre ele aqui, porque ele é um herói a parte, o fato é que ele acabou morrendo de forma trágica pelas mãos de um vingador.

Sinfiotli e Helgi eram típicos piratas (leia-se: vikings) e em suas campanhas piratas ganharam fama e fortuna. Também foi nessas campanhas vikings que Sinfiotile apaixonou-se por uma jovem que estava sendo cortejada pelo irmão de sua madrasta. Ele desafiou-o por ela e o matou, tomando assim a garota como esposa.

A sua madrasta, Borghilde, nunca gostou do enteado e agora tinha mais um motivo para odiá-lo, visto que ele matou seu irmão. Ela preparou vinho envenenado e fez um plano, oferecendo três chifres com vinho para que Sigmund que bebeu dois e ofereceu o último a Sinfiotli. Este último chifre continha veneno e Sinfiotile caiu morto.

Fiordes são elementos geológicos que constituem grandes porções de mar circundados por montanhas, muito comuns nas costas de países nórdicos.

Nota: Na primeira versão que eu li, é dito que por algum motivo Sigmund era imune ao veneno, o que fez ele beber um barril inteiro de vinho envenenado sem sofrer nada. Sinfiotile não bebeu nada porque desconfiava da madrasta, mas então o seu pai disse que ele deveria filtrar o vinho pelos bigodes, e quando Sinfiotli o fez caiu morto.

Sigmund expulsou Borghilde de sua corte e tomou o filho nos braços para enterrá-lo num fiorde.

Ao chegar no fiorde, um velho barqueiro se ofereceu para fazê-los atravessar a água, mas só podia levar um de cada vez. Sigmund colocou o corpo do filho no barco e o velho partiu e sumiu na névoa, não mais retornando. Esse velho era Odin, que levou o corpo de Sinfiotli para o Valhalla, apesar de ele não ter morrido em batalha.

  • A morte de Sigmund

Hiordes e Sigmund, o cara de vela aí deve ser o tal do Lyngvi.

Sigmund então casou-se novamente, ele casou-se com uma nobre chamada Hiordes (Hjordis). Mas para casar-se com ela teve que derrotar um outro pretendente numa batalha.

Esse pretendente era Lyngvi (impossível adaptar esse nome), filho de Hunding, o rei que Helgi havia matado.

Não suportando a humilhação de ver sua família perdendo para os descendentes de Volsung duas vezes, ele reuniu seus exércitos e desafiou o rei de Hunaland.

Sigmund agora estava velho, mas conseguia segurar uma boa batalha tendo ao seu lado a espada Gram.

Porém, no meio da batalha, um velho caolho usando uma túnica preta e um chapéu desabado surgiu portando uma lança. Esse era o deus Odin, que já havia decidido que o tempo de Sigmund havia chegado.

Com sua lança, o velho estilhaçou a espada Gram. Sem a espada, Sigmund sucumbiu caiu na batalha.

A rainha Hiordes, que estava grávida, fora deixada em segurança no bosque ali perto. Depois de findada a batalha, a rainha correu até o campo da guerra e encontrou seu marido a beira da morte.

Ele então profetizou o futuro heróico de seu filho que estava no ventre da rainha. Ele pediu que sua mulher recolhesse os estilhaços da espada mágica e guardasse com sua vida, para que quando chegasse a hora, ela fosse reforjada e seu filho pudesse usá-la mais uma vez.

Hiordes foi levada em segurança pelo rei da Dinamarca, um grande amigo de Sigmund, que recuperou o reino e colocou Hiordes em seu devido lugar como regente, até que o garoto crescesse e se tornasse rei.

Este garoto é Sigurd, o protagonista do Ciclo do Anel.

  • E o Tolkien?

Já me perguntaram se J. R. R. Tolkien realmente utilizou elementos dessas histórias para criar o épico “O Senhor dos Anéis”.

O próprio Odin utilizando um manto cinzendo é uma inspiração para Gandalf, o Cinzento. E da saga dos Volsungs, eu posso afirmar que a espada Gram é a principal inspiração para a espada Narsil.

Pra quem não sabe, Narsil é a espada do rei dos dunedáin que foi quebrada por Sauron, anos depois ela viria a ser reforjada e empunhada por Aragorn que lhe rebatiza como Andúril.

Alguns falam que o ato da rainha Signe se jogar nas chamas junto do rei Siggeir é semelhante à cena onde o regente Denethor tenta se cremar junto de seu filho Faramir, mas o ato de se lançar na pira funerária de um ente querido é algo recorrente em várias mitologias e se repete várias vezes na mitologia nórdica.

Anúncios

5 thoughts on “O Ciclo do Anel pt. 0 – Os Völsungs

  1. Muito bom! A informação referente a mitologia nórdica no nosso país é totalmente escassa! Até livros que tratem do assunto são difíceis de serem encontrados! Adorei o post!

    • antes havia muito mais material disponivel, mas os sites foram expirando e agora não há praticamente nada em português, minha sorte foi que eu salvei grande parte do material 😀

Se você chegou até aqui, ao menos comente u.u

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s