Por São Arnaldo! | Resenha de ‘A Lenda de Ruff Ghanor, Volume I’

91w-SqrDpnL._AA1500_A Lenda de Ruff Ghanor, Volume I: O Garoto-Cabra (Nerdbooks; 320 páginas; 39 reais)

Sim, vale a pena! Ignore o subtítulo aparentemente tosco (“o garoto-cabra”), o nome clichê do protagonista de fantasia medieval (“Ruff”) e o erro gramatical em “São Arnaldo” ao invés de “Santo Arnaldo”. Depois, deixe todas as expectativas de lado ao ler A Lenda de Ruff Ghanor – O Garoto-Cabra. Todos esses detalhes serão devidamente explicado com argumentos convincentes no decorrer da história. O mundo de Ruff Ghanor faz parte de um universo riquíssimo em detalhes e que ainda trará muito material aos seus fãs em breve.

Enquanto procuram por cabras que escaparam de um cercado, dois sacerdotes da ordem de São Arnaldo acabam encontrado no interior de uma caverna um pequeno garoto, aparentemente muito poderoso e ao mesmo tempo cativante. O garoto é levado pelos acólitos e cresce seguindo os preceitos da fé praticada no mosteiro, onde há um vilarejo ao redor. Durante sua juventude ele vive uma paixão e descobre o poder de um terrível tirano que assola todas as terras conhecidas, o dragão vermelho Zamir. Nesta primeira parte desta – já confirmada – trilogia, acompanhamos as aventuras que levam à formação deste herói e seu destino inevitável: derrotar o dragão.

Sempre que começo a ler um livro com poucas resenhas ou que é de alguma forma independente, fico com um pé atrás. Penso demasiadamente sobre o processo de escrita e publicação, o que deixa a leitura demorada e arrastada. Porém, quando o livro é bom, tudo muda e aí vem todo aquele apego que costumamos ter com boas histórias. E foi isso que aconteceu. A história é baseada em três episódios de RPG do Nerdcast, o podcast mais baixado do Brasil, publicado semanalmente no site sobre cultura pop Jovem Nerd. Não é uma romantização dos acontecimentos narrados no podcast, mas sim conteúdo extra, uma história que se passa anos antes e expande o universo criado no programa. O autor se baseou em poucas informações citadas como background da história original e no livro de referências visuais As Crônicas de Ruff Ghanor e criou quase tudo do zero.

Arte: Ariane Soares

O escritor gaúcho Leonel Caldela é também tradutor e editor. Sua carreira como autor de fantasia medieval e expansão de universos de RPG já dura dez anos, desde a publicação de O Inimigo do Mundo em 2004. A partir daí, o autor já lançou mais dois livros da Trilogia da Tormenta – O Crânio e o Corvo e  O Terceiro Deus – e, também, a duologia As Profecias de Urag, que apresenta uma fantasia mais pé no chão, baseada na brutal e suja idade média. Em 2013, foi a vez de Caldela criar seu próprio universo, O Código Élfico, que começou em uma frase proposta pelo amigo Raphael Draccon: “um grupo de cientistas cria um elfo em um laboratório”. Ainda não tive a o oportunidade de ler nenhum dos livros citados acima, mas O Código Élfico já está na minha lista de próximas leituras.

É a primeira vez que leio um livro escrito por Leonel, embora ele já tenha participado anteriormente de publicações relevantes no mercado brasileiro, como a Trilogia da Tormenta, também baseada em um universo previamente existente e O Código Élfico, os quais lhe trouxeram muitos dos fãs. Confesso que no começo não confiei na história, mas a forma como é narrado e as relações entre os personagens me deixaram imerso de vez. Leonel provou ser o excelente autor que muitos recomendam por aí.

A fantasia descrita no livro é aquela que já estamos acostumados: feitiços, poções e golpes mágicos. Porém tudo é descrito de forma sutil e que não se destaca mais do que as relações entre o protagonista e os demais personagens. É interessante observar que há uma referência muito forte à forma como a Igreja se organizava na Idade Média, com mosteiros e sacerdotes. A diferença é que aqui a magia divina entra em ação com frequência.

Segundo os gramáticos, quando o nome de um santo começa com vogal, deve-se usar “Santo” antes, no lugar de “São”. Isso pode gerar uma confusão na cabeça de quem conhece a regra e ainda não leu o livro. O “erro”, que surgiu no podcast como um brincadeira, acaba sendo explicado com maestria pelo autor. São Arnaldo é o santo dos pobres e pessoas humildes, que não tiveram a oportunidade de estudar e, por isso, é conhecido pela forma errada de falar seu nome.

the_legend_of_ruff_ghanor_by_luaprata91-d83pmgfUma coisa que incomodou bastante logo no início foi a construção do romance. Foi algo que surgiu de repente e que não me cativou desde a primeira vez que apareceu, principalmente pela falta de profundidade nos diálogos entre os envolvidos e pela motivação do romance que se estendeu durante a narrativa não me convencer como leitor. Apesar de influenciar diretamente na trama, é um dos pontos fracos da história.

As histórias paralelas são o ponto forte do livro. Elas ajudam a construir o universo e dão profundidade aos personagens. Dessas, as que mais chamaram minha atenção foram ‘O Filho da Guardadora de Livros’ e ‘O Anão e O Inferno’. O primeiro conta o surgimento de uma criatura oriunda do cruzamento entre uma humana escravizada e um frio e sanguinário goblinoide, que faz parte das tropas sádicas do dragão Zamir. O meio-humano cresce seguindo o exemplo de maldade de sua ‘família’ hobgoblin e, um dia, tudo muda quando o ser encontra algo inesperado e revelador. A segunda história é a de um ferreiro anão que ganha a imortalidade por ser o único de sua espécie a dominar a fundição de metais com tamanha maestria. O sofrimento do personagem vem da impossibilidade de morrer, porque nenhum de seus discípulos consegue superá-lo em seu dom. Posso dizer com toda a certeza que só essas duas histórias já valem a leitura de todo o livro e são elas que me fazem esperar ansiosamente pelos próximos dois volumes da trilogia.

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