A Fé de Jackeline

A seguinte reportagem foi produzida durante o curso de ‘Comunicação Social – Jornalismo’ da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no ano de 2016. 

A Fé de Jackeline

Jackeline Mota Betcel, 19 anos, frequenta a igreja Assembleia de Deus desde que era criança. Sua avó, que a criou na infância, é uma das dirigentes da congregação, localizada em um ramal nas proximidades da capital Manaus. Jackeline viveu lá a infância inteira. Quando mais nova, cantava na igreja e fazia leituras de passagens bíblicas no altar.

Mesmo sendo assídua nos cultos, em alguns momentos não se via Jackeline na igreja. Primeiro porque ‘Jacke’ nasceu Denilson Mota de Carvalho, em 1997.  Quando começou a aparentar ser um garoto afeminado na infância, as crianças começaram a xingar e dar apelidos para o, então menino, que não deixava barato e não corria de briga. “Eles bagunçavam e eu retribuía”. Depois de um tempo, Jacke percebeu que aquilo fazia mal pra ela e não pra eles, porque quanto mais dava importância, mais era importunada. Quando deixou de se dar atenção, parou de ser incomodada. “A minha relação com a escola sempre foi assim”.

Jackeline nunca foi de questionar a própria sexualidade. Desde as primeiras lembranças da infância, achava bonitos os meninos, nunca se questionou se gostava de meninas, jamais se sentiu atraída por elas. “Tive uma fase de ficar com meninas pra fingir pros avós que gostava de mulher, mas sempre me vi ficando com homem e meu sonho era casar”, sorri. E casou. Jackeline é casada há 6 anos, com um jovem que conheceu em uma festa de Manaus.

“Quando a pessoa nasce assim só não vê quem não quer”.  Desde criança, esperava a avó sair para fazer as compras na feira, para então poder usar suas roupas e sapatos, junto com a maquiagem. “Sempre gostei de estar com meninas, de ajudá-las a se arrumarem, de ajeitar o cabelo delas”. Apesar disso, quando Jackeline ia para igreja vestia as roupas de menino e fazia tudo ‘conforme os padrões’. Jackeline se sentia mal quando ‘aprontava’ – beijava um menino, por exemplo – no mesmo dia do culto.

Na adolescência, mais especificamente aos 14 anos, Jackeline teve um problema com o pai, ele não aceitou sua vinda para Manaus e entrou na Justiça pela guarda dela. Ele não queria deixá-la morar com Fátima, sua segunda mãe de criação em Manaus. Então Jacke teve que voltar para o ramal onde viveu durante a infância. Lá, não pode estudar porque estava na metade do ano. Então ficou como uma peteca, de um lado para o outro, enquanto o problema da guarda não era resolvido. “Quando fui para o ramal, respeitava muito os meus avós e por isso deixei as coisas de menina de lado, em Manaus”.

Quando conseguiu voltar a Manaus, sua segunda mãe de criação, Fátima, já havia conseguido sua guarda. Foi aí que se assumiu de vez, deixou o cabelo crescer, parou de usar roupas ‘masculinas’. Até começou a namorar com o atual esposo.

A mulher que a adotou em Manaus é Fátima. Uma mulher de cabeça aberta e que costuma dizer que “homossexualidade sempre existiu”, desde os tempos antigos, como no Antigo Egito e na Grécia. “Ela é incrível, tem algo nela que acolhe. Ela me ajudou bastante em tudo”. Até o nome ‘de menina’, Jackeline, quem escolheu foi ela, baseado na novela Tititi, da personagem interpretada por Cláudia Raia.

Jackeline é extremamente feminina, muitas vezes passa despercebida por preconceituosos. Usa o banheiro feminino, é atendida nas lojas como mulher. Poucas vezes é privada de algo por ser trans. Vai a todos os lugares, faz o que quer, frequenta onde quiser. Atribui ao fato das pessoas estarem começando a se inteirar sobre o assunto e entender melhor as coisas. “Tem muitas transexuais que passam por isso. Isso é chato porque as pessoas já deveriam entender que isso é normal, é muito antigo”.

Ainda assim, ela não pode dizer que não passou por esse tipo de situação. Até hoje quando anda pela rua, Jacke ainda sofre com pessoas que decidem incomodá-la. As pessoas a questionam sobre o que ela é. “Há homens que gritam na rua ‘É homem ou mulher?’. Eu respondo ‘é os dois! por quê?’. Quando a gente aprende a se amar, a gente para de sofrer.”

A jovem enfrenta um contratempo nos estudos. Teve problemas com a guarda entre os pais e perdeu muitos anos da escola. Pretende começar o ensino médio somente em 2017.

Certa vez, quando estava no fundamental, já adolescente, a diretora veio perguntar de Jackeline em frente de toda a escola o por quê de estar usando o banheiro feminino. Uma das colegas, que era muito evangélica, havia ido questionar a administração pelo fato de ‘haver um gay usando o banheiro feminino’. “Acho que essas pessoas não sabem nem o que é homossexualidade e transexualidade’, afirma, ao lembrar.

Então a diretora chamou a atenção de Jack na frente da escola inteira e disse que ela não poderia usar o banheiro das meninas pois seu gênero é o masculino. Jacke olhou para ela e disse:
“Olha para mim, o que você vê? Eu, uma menina de salto alto, vestida de mulher, entrar no banheiro masculino, você acha que pode acontecer o quê? Você acha que não vai ser pior?”.
Jackeline, então, afrontou, dizendo que se ela não quisesse que ela usasse aquele banheiro, que fizesse uma banheiro direcionado para transsexuais. A decisão da diretora não poderia ser menos a absurda. Assim que a escola passou a ter um banheiro para deficientes, a diretora ‘recomendou’ que Jackeline o usasse  a partir de então. “Eu perguntei pra ela se eu tinha alguma deficiência. Mesmo assim, pra não aumentar a confusão, tive que me conformar e continuei usando esse banheiro. Você tem que lutar pelo que você tem certeza do que fazer, não aceitar o que as pessoas acham que é certo”, declara.

Jacke diz que não tem interesse em fazer parte de movimentos LGBT, porque se sente desconfortável com algumas pessoas. Ela acha que dentro do próprio movimento há pessoas que fazem coisas ruins umas com as outras, apontam o dedo na cara. “Eu não quero me meter em parada gay, acho ruim, prefiro ficar em casa. Preconceito existe dentro da própria comunidade”, ela costuma afirmar. “O que mais tem é preconceito entre nós mesmos”.

Quando voltou para o ramal como menina, Jackeline considera que foi muito melhor aceita pelos avós. “Eles me amam”.

Quando foi pela primeira vez de menina, seu avô teve um receio. Não queria falar com a ela, não respondia e não dava a “bênção”. Mesmo assim, Jacke nunca deixou de cumprimentá-lo, nem de abraçá-lo. “Quando chegava abraçava, quando saía abraçava. Nunca deixei acontecer a distância que estava querendo criar. Sempre procurei fazer ele gostar de mim do jeito que eu sou.”

Tudo mudou quando os avós de Jacke descobriram que o próprio filho, tio de Jacke, é homossexual. A partir disso não tiveram que lidar apenas com ‘o neto’, mas também o filho. “E filho é uma coisa a mais. Quando eles aceitaram o filho, acho que passou pela cabeça deles assim ‘Eu não posso rejeitar o neto’. Ou melhor dizendo, neta.”

Atualmente, Jacke corre atrás de melhorar a relação com o pai, com quem foi distante por muitos anos. Este ano foi ao almoço de dia dos pais, junto com as duas irmãs e ouviu de seu pai um elogio:
“Nossa, que linda, tu está bem mais bonita que tua irmã’ brincou.
Para Jacke foi um momento de muita alegria. “…quando meu pai começou a me aceitar, me abraçar, elogiar minha beleza”, lembra. A convivência que antes não havia entre pai e filha começara a acontecer.

Em Manaus, porém, nem tudo são flores. Jackeline vive uma ambiguidade, mantém sua fé evangélica, em uma das igrejas que mais rejeita comportamentos ‘fora do padrão’, a Assembleia de Deus. Ela diz que se pudesse fazer um único pedido a Deus, escolheria que ele a fizesse ser um homem como os outros. O temor a Deus é uma das características marcantes da jovem. É tanto, que até hoje se sente errada quando se relaciona com o marido e lembra da Bíblia, aberta na sala de estar. “Eu gosto também de ouvir louvores, sempre ouço. Se meu esposo vier me beijar enquanto estiver ouvindo, eu afasto ele para longe”.

Certa vez, Jacke foi para uma vigília da igreja e, segundo ela, se trancou somente para Deus. Lá pediu muito que se Deus pudesse, a mudasse e transformasse em um homem cis gênero. Ela acredita que ‘se ele não a mudou é porque há alguma razão em estar na Terra do jeito que é’. “Se sou do jeito que sou é porque Deus quer, deve ser porque alguma coisa eu tenho. Eu me vejo mulher, sou uma mulher e gosto muito de ser mulher”, sorri.

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